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L I M B O 

Do latim limbus: borda; margem.

 

Objetificar a existência humana de estudantes e professores nas relações cotidianas dentro da universidade; tornar a produção de conhecimento acadêmico “produtiva”; usar o poder do cargo público e a autoridade de professor para assediar e excluir; despersonalizar e pasteurizar a produção de conhecimento científico; uniformizar as mentes e os espíritos. Isolar; tornar invisível; calar; colocar à margem de.

 

2018. Brasil. Nas universidades: Assédio sexual e moral; aumento dos casos de suicídios de estudantes; professores diagnosticados com depressão e outros transtornos psicológicos; insegurança nos campi, casos de estupro e assaltos constantes; redução ou corte de investimento público em educação, ciência e tecnologia.

Neste trabalho, faço uma crítica visual à objetificação da existência humana no meio acadêmico brasileiro.

Este trabalho surgiu como uma espécie de 'grito silencioso'. Em 2010, já morando em Salvador/BA e cursando o doutorado em Antropologia (Ufba), apenas três meses após terminar o curso de mestrado em Lazer (Ufmg) e ter sido aprovada pela banca de defesa da minha dissertação, eu fui acusada de ter cometido um plágio de um trabalho de uma pesquisadora que fazia parte de um dos grupos de pesquisa dos quais participei e que, também, havia sido orientada anos antes pela mesma profª. orientadora do trabalho da minha dissertação, aprovado na banca. Esta pesquisadora, inclusive, assistiu a defesa da minha dissertação que foi aprovada. A acusação abriu um processo administrativo na Ufmg para averiguar o caso, que seguiu sem ser comunicado de suas etapas internas e, portanto, sem possibilitar minha devida defesa durante o andamento do processo administrativo, desconsiderando os procedimentos legais referentes ao andamento de processos administrativos e culminando com a cassação do meu título de mestre, 5 anos depois. Posteriormente, já em um novo processo que movi contra a Ufmg em nível judicial mais amplo, apresentamos as provas de defesa e um laudo comprovando que meu trabalho não foi um 'plágio' e que ocorreram sérios problemas relativos ao trabalho de orientação que culminaram com a total desconsideração de tudo que eu havia realizado na pesquisa de campo, havia escrito e enviado para 'análise' da orientadora que enfaticamente orientou, então, que eu "seguisse o trabalho" da colega pesquisadora (que, inicialmente, nem era uma das minhas referências bibliográficas). Sendo assim, eu refiz o trabalho realizando o que me havia sido orientado enfaticamente a ser feito, enviei o trabalho para a orientadora analisar e ela aprovou. A banca foi marcada e o trabalho foi aprovado pela banca. Só que três meses depois, veio a acusação 'anônima' de plágio. 

No doutorado em Antroplogia (Ufba), que estava em andamento desde 2010 (até final de 2015), eu também tive um problema sério com o prof. orientador, que não só não fez o trabalho de orientação, como me assediou (por mensagem), ao misturar sentimentos pessoais com a relação profissional, e que em prol de sua frustração pessoal com a minha pessoa, que eu 'tivesse sorte na minha banca' (na ocasião, a banca de defesa da minha tese já estava agendada e a Ufba estava em greve, somente realizando as bancas de defesa). De todo modo, eu contatei o então coordenador do curso mostrando a mensagem-prova do assédio do orientador, mas ele me aconselhou a fazer a defesa do trabalho mesmo assim, pois já estava agendada e confirmada. A minha banca de defesa da tese de doutorado durou 05 horas e, entre o assedio do orientador e os rumores relacionados à denúncia de plágio em andamento na Ufmg, a banca resolveu aprovar meu trabalho 'com ressalvas', isto é, eu teria um prazo para fazer algumas alterações sugeridas, mas estas alterações teriam que passar pelo orientador. Foi então que o coordenador do curso, ciente da situação de assedio, informou que eu deveria fazer as alterações solicitadas pela banca no trabalho sem nenhum outro professor do curso orientando e, portanto, sem orientador, e enviar o trabalho com as minhas alterações para o colegiado do curso, que iria dar o 'parecer final'. Eu fiz as alterações sem orientador, enviei o trabalho para o colegiado dentro do prazo estipulado e, em uma 'comissão interna' do colegiado, o parecer final foi de 'aprovação' do meu trabalho. No entanto, isto foi na mesma época de mudança de coordenador do colegiado e, então, o novo coordenador decidiu mudar a narrativa e não aceitar o 'parecer final de aprovação' da comissão do colegiado da gestão anterior, o que gerou um conflito interno no colegiado, mas com a decisão final de que a aprovação do meu trabalho deveria ser tomada pela banca da minha defesa, junto com o orientador. O resultado era previsto: o trabalho foi, então, reprovado e eu perdi todo o trabalho de campo realizado e o título também. 

Quanto à cassação do meu título de mestre pela Ufmg em função da acusação de 'plágio', foi publicada uma matéria no jornal online da Ufmg, mencionando meu nome, mas sem mencionar que não tive amplo direito à defesa no processo administrativo e todos os pormenores relativos ao caso e à situação com a orientação do trabalho. Esta matéria não foi retirada da Internet nem mesmo com a posterior abertura do processo judicial contra a Ufmg que movemos, mesmo com o processo não tendo ainda sido julgado em todas as instâncias e, portanto, continua me lesando e chegou a atrapalhar em algumas ocasiões, inclusive, a minha recolocação no mercado de trabalho.

Ironia maior é que ambos os trabalhos (tanto a dissertação acusada de 'plágio' quando a tese doutorado) foram publicados: a dissertação de mestrado acusada de 'plágio' não foi retirada pela instituição da biblioteca física e online da Ufmg, mesmo tendo sido 'condenada' em processo administrativo como um 'plágio' e a minha tese de doutorado eu publiquei em um blog pessoal e no meu perfil do Academia.edu, junto com uma 'carta aos leitores' sobre o caso que acabou sendo parte da pesquisa que deu origem ao trabalho. Ambos trabalhos são citados e mencionados em diversos outros estudos e pesquisas.

Diante deste 'apagamento' e 'sufocamento' que eu passei no meio institucional acadêmico federal e no 'limbo' da esperança de que os dois processos federais em andamento que movi contra a Ufmg e contra a Ufba encontrem um juiz que leia os autos e não apenas 'se livre' do processo mencionando que 'autarquias federais têm autonomia' e que, portanto, faça de fato justiça, eu realizei, então, este trabalho fotográfico, como forma de 'gritar em silêncio' a dor da injustiça e do silenciamento em prol da imagem institucional da 'universidade pública', das relações entre professores e coordenadores de curso, da vaidade intelectual infundada, do silenciamento sobre a não-realização dos trabalhos que são remunerados de orientação de alunos de pós-graduação, do completo desdém pelo serviço público e pela função da universidade como locus de educação, aprendizado e desenvolvimento profissional. 

As fotografias foram feitas nas faculdades dentro dos campi da Ufmg e da Ufba por onde estudei e onde ocorreram várias etapas dos cursos (aulas, defesas de qualificação, biblioteca, auditórios, cantina, banheiro, etc.). Eu não agendei previamente a ida aos locais para realizar as imagens, apenas levei a máscara na mochila, entrei nos locais e fiz as imagens sem explicar para as pessoas do que se tratava. Interessante notar que, quase como uma espécie de 'eco' do 'grito silencioso' da 'cena', ninguém olhou para mim ou para a câmera durante a realização do trabalho -, ato que não foi combinado previamente, ou seja, o 'eco' também foi, visivelmente, a 'invisibilidade' e a 'indiferença'. 

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